“Náufragos, Traficantes e Degredados”

Publicado em: História

22 abr 2010

510 anos depois…

O título desse post foi retirado de um dos livros escritos pelo historiador Eduardo Bueno, adquirido em 2000, por ocasião dos quinhentos anos do descobrimento do Brasil. Dez anos se passaram e cá estamos. Outro 22 de abril. Sem náufragos, mas sobrando degredados  dos mais variados tipos, e traficantes – de drogas à propinas.  Os relatos mostram  o nosso  ¨DNA¨ definindo-se.

Este livro aborda especialmente as primeiras décadas do gigante tropical, relatando às diversas expedições ibéricas à costa brasileira e sul-americana. O Tratado de Tordesilhas então em vigor estimulava  a competição entre Portugal e Espanha para conhecer e se estabelecer nas terras recém descobertas. As expedições bem sucedidas nas explorações também traficavam o pau-brasil,  e daí um dos nomes do título. As mais infelizes resultavam em naufrágios. E os mais desgraçados marinheiros eram abandonados em meio aos índios, como castigo por alguma falta grave.

Uma das histórias relatadas é particularmente interessante, por passar-se numa região conhecida, aqui perto. Quem trafega pela BR 101, no Morro dos Cavalos, em Palhoça, na altura da Enseada de Brito, avista um restaurante (com uma bela vista, por sinal) chamado Porto Solis.  O nome não deve ser por acaso.

Em 1516, uma das expedições espanholas que exploravam a costa, no intuito de alcançar a passagem para o oceano Pacífico,  aportou justamente na ponta sul da Ilha de Santa Catarina. Comandada pelo português naturalizado castelhano, João Dias de Solis,  permaneceram ali antes de zarpar para sua derradeira viagem rumo ao Rio da Prata. Lá,  Solis encontraria seu fim, num massacre dos índios que habitavam a foz do rio Uruguai. Os sobreviventes da expedição retornariam ao Brasil, não tendo muito melhor sorte.

Uma das caravelas  teve problemas ao passar pelo litoral brasileiro e, buscando um porto seguro, entrou novamente na baía sul da Ilha de Santa Catarina. Afundou em frente à praia conhecida nos dias de hoje como Naufragados. Os sobreviventes – algo em torno de 11 a 18 pessoas, não se sabe ao certo – viveram por 15 anos entre os índios carijós. E auxiliaram as expedições seguintes  rumo ao  Prata e na colonização do Sul do Brasil.

Uma das conseqüências imediatas após essa expedição de Solis foi a determinação do rei português de colonizar as terras tupiniquins, temendo que os homens naufragados começassem tal processo para a coroa espanhola na região.

Como se vê, há sempre uma história por trás dos nomes que vemos por aí. E escapamos de falar castelhano, talvez, por conta de eventos como o transcrito acima. Com passagens trágicas ou obscuras,  e gostando-se ou não,  é a nossa história. Em tempo: se fôssemos atualizar o título para os personagens do Brasil contemporâneo, como seria?

Para saber mais: Náufragos, Traficantes e Degredados;  Coleção Terra Brasilis, Eduardo Bueno, Editora Objetiva.

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Tem 3 pessoas discutindo o artigo "“Náufragos, Traficantes e Degredados”"

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IM

abril 24th, 2010 at 2:18 pm

Acho que o título acima continua atualíssimo, nao achas?
Somos náufragos degredados em terras de traficantes, corruptos e afins. A história não parece um círculo vicioso?
Um dia melhora…quando o brasileiro sair do “deitado em berço explêndido”!

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Cristiano

maio 4th, 2010 at 5:20 pm

Que pena que os espanhóis não se apossaram do Sul…hoje poderíamos ter uma qualidade igual a da Argentina, porém sem argentinos….hehehe

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Tadeu Barbalho

abril 22nd, 2011 at 6:43 am

Somos um País muito jovem. Aprenderemos com mais 510 anos o valor da educação, da cidadania, da alteridade, do meio ambiente. Avançamos em muitas áreas como a Neurologia, biocombustíveis, Direitos humanos e muitas outras conquistas. Mas ainda somos crianças no entendimento de vários saberes. A globalização nos revelou, quando comparado a outros países, nossas grandes e sérias deficiências. Tudo dentro de um processo natural de aprendizado. Façamos a nossa parte como críticos e transformadores da história, o que será de grande valia para futuras gerações.

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